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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sobre ela e Sobre mim...

Faz Escuro mas Eu canto, 15 de julho de 2009.

"Caro Rodrigo,

Há quanto tempo não nos vemos... enorme saudade! Lembra daquela sua amiga nordestina, aquela que o rosto é o mesmo de milhares de moças por esse nosso país tão vasto... a vi num dia desses chuvosos... é foi o meu encontro com ela que me motivou a escrita desta carta...

Outro dia eu estava a andar pela rua, como sempre faço, pensando na vida... quando me deparei com um aglomerado de pessoas... e confesso que a curiosidade é um ato falho de minha parte, mas acredito que naquele dia fora algo útil...

Acredite que presenciei momentos depois de um atropelamento, e quem estava a agonizar era ninguém mais que essa sua amiga! Presenciei a encenação daquela pobre que tanto queria ser artista de cinema...

Perguntei o que havia acontecido a uma pessoa que havia presenciado o acidente, mas que parada observava a pobrezinha, sem ajudar, sem nada a fazer... Ela me relatou que a moça estava olhando para o céu, como que agradecento a algo, não prestou atenção ao atravessar a rua e fora atropelada por um luxuoso Mercedes amarelo...

Vi a pobrezinha feinha caída no chão, realmente "como uma galinha de pescoço mal cortado" e lutando muda em favor de uma vida que muitos julgaram demasiadamente sórdida, a qual a morte seria um bom fim... a quem não vive... quiçá sobrevive.

E quando os pingos de chuva se tornaram mais fortes... e o som do violino se fez presente... lembrei me da condição burguesa e o luxo de saber de uma história tão sofrida dessa nossa amiga, e de que nada tenho a reclamar da minha vida... E percebi que um dia alguém poderia vir a me julgar "um vago sentimento nos paralelepípedos sujos"... Doeu-me ver sua amiga em posição fetal, se abraçando, como quem pedia carinho... Não resisti, gritei: - PAREM!!!

Abri o caminho no meio do algomerado e a abracei... e como a abracei forte! "- Esta mulher precisa de ajuda, de uma ambulância! De um sopro de vida! De um sonho!" E logo alguém conseguiu socorro, e houve uma agitação e de repente uma multidão de pessoas estavam ajudando em algo...

Eu estava sentada no chão com ela em meus braços e me derramando em lágrimas e pedia forte: "- Salvem esta mulher!!" Ela me sussurrou: "Quanto ao futuro?" Com sorte chegou viva no hospital! E quer você acredite ou não... ela se salvou... Ou será que eu me salvei? Não sei bem ao certo... Sei que deste episódio... nasci para vida!

E acredito que ela também, pois fui visitá-la no hospital, e levei-lhe morangos om açúcar para lhe adoçar um pouco a vida, e ela humildemente me pediu que lhe levasse um pedaço de goiabada com queijo que isso sim a faria muito feliz... e é claro que atendi a seu pedido.

A última vez que a vi, me contou que estava mudando de cidade para tentar uma vida nova, e não me lembro bem, mas parece que esperar por aquilo o que profetizou uma certa cartomante... Eu me despedi dela com aquela sensação de que a morte não é de todo mal... em certas fases da vida é necessário deixar-se morrer quando não há mais caminho por onde correr... mas sempre renascer das cinzas... porquanto depois da morte possa ser tempo de morangos... ou seja a vida segue... e serão muitos as horas em que as estrelas terão seu momento mágico... faz parte do simulacro da vida... e para quem gosta de goiabada com queijo como a nossa amiga... seja doce ou salgada... que seja a vida! E aqui me despeço... Um abraço para ti e para Clarice...

Com carinho...

Morenay Flor"

terça-feira, 23 de junho de 2009

Viu Macabéa...


MusicPlaylist
MySpace Playlist at MixPod.com

- Viu Macabéa, a cara é mais importante do que o corpo. Sabe por quê? Porque a cara mostra o que a pessoa tá sentindo lá dentro. Por exemplo, você tem uma cara de quem comeu e não gostou. Eu não aguento cara triste. Vê se muda de expressão pelo meno uma vez na vida.

* Cena e fala do filme "A hora da Estrela" de Suzana Amaral, com Marcélia Cartaxo, como Macabéa.
** Está bem... E daí? Está te incomodando? E você tem cara de quem comeu palhacinho estragado no almoço!! Fala para ele Maca!!!

sábado, 11 de abril de 2009

Cativando...


" - Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante."

sábado, 12 de julho de 2008

Enquanto isso no morro dos ventos uivantes...


" - Não vejo razão para que não o saiba, já que você o sabe. E se você for a sua escolhida, ele será a mais infeliz criatura que jamais nasceu! No mesmo dia em que você se tornar a Sra. Linton, ele perderá amizade, amor e tudo! Já pensou como suportará você a separação e como suportará ele o ficar completamente abandonado no mundo? Porque, Srta. Cathy...

- Completamente abandonado! Separados, nós dois! - exclamou ela , em um tom indignado. - Quem nos separaria, pergunto-te eu? Quem o fizesse teria a mesma sorte de Milon de Crotona! Enquanto eu viva for, Helena, nenhum mortal conseguirá isso. Poderão todos os Linton da terra desaparecer, mas não consentirei em apartar-me de Heathcliff. Oh! Não é isso o que eu queria dizer... não é isso o que pretendo! Ele será para mim o que sempre tem sido. Edgar deve desembaraçar-se da antipatia por ele e tolerá-lo, pelo menos. Ele o fará quando souber de meus verdadeiros sentimentos para com Heathcliff. Nelly, eu vejo agora tu me julgas uma miserável egoísta, mas nunca te passou pela cabeça que, se Heathcliff e eu nos casarmos, seremos mendigos? Enquanto que, se me casar com Linton, posso ajudar Heathcliff a erguer-se, colocando-o fora do jugo de meu irmão.

- Com dinheiro de seu marido, Srta. Cathy? Você não o encontrará tão manejável como calcula. Muito embora não caiba a mim ser juiz no caso, penso que esse é o pior dos motivos que você deu para explicar seu consentimento em casar-se com o jovem Linton.

- Não é - retrucou ela - é o melhor! Os outros eram a satisfação de meus caprichos e dos de Edgar também. Este outro diz respeito a uma pessoa que reúne em si tudo quanto eu sinto por Edgar e por mim mesma. Não posso exprimi-lo, mas decerto tu tens, como toda a gente, uma vaga idéia de que há, de que deve haver fora de nós uma que é ainda nossa. De que serveria ter eu vindo ao mundo se me confinasse no que aqui está? Minhas grandes infelicidades neste mundo têm sido as infelicidades de Heathcliff. Aguardei-as e senti-as todas desde sua origem. É ele a minha grande razão de viver. Se tudo perecesse, mas Ele ficasse, eu continuaria a existir. E, se tudo permanecesse e ele fosse aniquilado, o mundo inteiro se tornaria para mim uma coisa totalmente estranha. Eu não seria mais parte desse mundo. Meu amor por Linton é como a folhagem dos bosques: o tempo o transformará, estou bem certa, como o inverno muda as árvores. Meu amor por Heathcliff assemelha-se aos rochedos imotos que jazem por baixo do solo: fonte de alegria pouco aparente mas necessária. Nelly, eu sou Heathcliff. Ele está sempre, sempre, em meu pensamento. Não como um prazer, visto como nem sempre sou um prazer para mim mesma, mas com meu próprio ser. Por isso não fales novamente de nossa separação. É impraticável, e..."*

Bem, não tenho nada a dizer sobre estes dias.... tudo em mim tem sido muito confuso... é um turbilhão de sentimentos... Não sei de quem tenho saudade... não sei do que tenho raiva... não sei por quem sinto amor... pode até parecer bobagem... mas toda essa confusão de sentimentos tem me deixado angustiada... é como se eu me preparasse para apresentar uma personagem todos os dias... não sou feliz... e não entendo o porquê... não adianta eu tentar me agarrar em pequenas fugas... em algo do passado... já passou... no entanto penso como o presente me entedia... e como o futuro me amedronta... é como se eu estivesse o tempo todo com a mão estendida no escuro esperando que alguém me guie... e qualquer um ou qualquer coisa que me leve pelo menos um instante que seja para longe da minha realidade já basta para eu sentir alegria... mas alegrias efêmeras... No fundo eu sei o que quero... mas será que sei? Seria eu a "Hard luck Woman"?

* - O Morro dos Ventos Uivantes - Para quem gosta de romances como esses... é um dos meus favoritos...

terça-feira, 15 de abril de 2008


"(...) - Pare! Mas o que é isso?! - exclamou Albert, abaixando a pistola.
- Não está carregada - respondi-lhe.
- E, mesmo assim, que é que significa isso? - replicou ele impaciente
- Não posso imaginar como um homem possa ser tão insensato para se dar um tiro. Só em pensar nisso sinto repulsa.
- Porque vocês, homens - gritei - não podem falar de uma coisa sem logo declarar: "Isso é insensato, aquilo é razoável, aquele outro é bom, isso aí é mau"? De que servem todas essas palavras ocultas de uma ação? Sabem com rigorosa certeza as causas que a produzem, que a tornaram inevitável? Se assim fosse, não enunciariam com tanta rapidez os seus julgamentos.
Disse Albert:
- Você há de concordar comigo, que certas ações são sempre criminosas, qualquer que seja a razão.
Encolhi os ombros e acrescentei:
- Porém, meu amigo, também nesse ponto há exceções. É verdade que o roubo é um crime; mas o homem que se torna ladrão para salvar-se e salvar os seus da fome merece compaixão, ou o castigo? Quem atirará a primeira pedra no esposo que, numa explosão de cólera justa, mata a esposa infiel e o infame sedutor? Ou na jovem que num momento de vertigem, se abandona à ebriedade irresistível do amor? Nossos próprios juízes, esses pedantes de coração gelado, deixam-se comover e seriam capazes de suspender o julgamento.
- Mas esse caso é muito diferente - tornou Albert - pois, o homem arrebatado por suas paixões perde a capacidade de refletir e deve ser considerado um bêbado, ou um louco.
- Oh! Essas pessoas sensatas! - exclamei sorrindo - Paixão! Embriaguez! Loucura! E vocês se conservam tão calmos, tão indiferentes, vocês, os homens da moral! Esmurram o bêbado, repelem o louco, e passam adiante, como o padre, como o fariseu que agradece a Deus por o não ter feito igual aos outros! Embriaguei-me por mais de uma vez, e as minhas paixões estiveram sempre à beira da loucura, e disso não me arrependo, porque só assim cheguei a compreender, numa certa medida, a razão por que, em todos os tempos, sempre foram tratados como bêbados e como loucos os homens extraordinários que realizaram grandes coisas - as que pareciam impossíveis... Mas, ainda na vida comum, nada mais insuportável do que a todo momento ouvir gritar, sempre que um homem pratica uma ação intrépida, nobre e grandiosa: "Esse homem está bêbado! É um louco!..." Que vergonha, vocês que vivem sóbrios! Que vergonha, homens sensatos!
- Você e suas quimeras! - disse Albert - Você exagera tudo! Desta vez você está completamente errado quando compara o suicídio, que é um assunto em foco, com as grandes ações, pois não se pode considerá-lo senão como uma fraqueza. Sem dúvida, é muito mais fácil morrer do que suportar uma vida de tormentos.
(...) - Chama a isso de fraqueza? Peço-lhe que não se deixe levar pelas aparências! Você pode achar que um povo, que vive sob o jugo insuportável de um tirano, é fraco quando se levanta e rompe os seus grilhões? O homem que, assustado diante da sua casa incendiada, apela para todas as suas forças e transporta facilmente cargas que, em seu estado normal, mal poderia empurrar; ou um outro que, no auge do furor que lhe cause uma ofensa, se defronta com seis adversários e vence-os, você dirá que são fracos? Muito bem, meu amigo, se um esforço considerável é uma prova de força, por que um esforço alucinado seria o contrário? (...)
- Os sofrimentos do Jovem Werther -
- Goethe -



quarta-feira, 2 de abril de 2008

Apenas esperando... a hora da estrela...

"Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade nela – e é claro que a história é verdadeira embora inventada – , que cada um a reconheça em si mesmo porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial.”
- Clarice Lispector -
Eu apenas espero... em razão de um ato de misericórdia... a hora da estrela... seja ela bem vinda... assim como a vida foi...

sexta-feira, 7 de março de 2008

"(...) É preciso correr riscos (...) Só entendemos direito o milagre da vida quando deixamos que o inesperado aconteça.
Todos os dias Deus nos dá - junto com o sol - um momento em que é possível mudar tudo o que nos deixa infelizes. Todos os dias procuramos fingir que não percebemos este momento, que ele não existe, que hoje é igual a ontem e será igual a amanhã. Mas quem presta atenção ao seu dia, descobre o instante mágico. Ele pode estar escondido na hora em que enfiamos a chave na porta pela manhã, no instante de silêncio logo após o jantar, nas mil e uma coisas que nos parecem iguais. Este momento existe - um momento em que toda a força das estrelas passa por nós, e nos permite fazer milagres (...) Pobre de quem teve medo de correr os riscos. Porque este talvez não se decepcione nunca, nem tenha desilusões, nem sofra como aqueles que têm um sonho a seguir. Mas quando olhar para trás - porque sempre olhamos para trás - vai escutar seu coração dizendo: "O que fizeste com os milagres que Deus semeou por teus dias? (...)"

"(...) Às vezes somos possuídos por uma sensação de tristeza que não conseguimos controlar. Percebemos que o instante mágico daquele dia passou, e nada fizemos. Então a vida esconde sua magia e a sua arte. Temos de escutar a criança que fomos um dia, e que ainda existe dentro de nós. Esta criança entende de instantes mágicos. Podemos sufocar seu pranto, mas não calar a sua voz. (...) Vamos permirtir que ela tome um pouco as rédeas de nossa existência. Esta criança sabe que um dia é diferente do outro. Vamos fazer com que se sinta de novo amada. Vamos agrada-la - mesmo que signifique agir de maneira a que não estamos acostumados, mesmo que pareça tolice aos olhos dos outros. Se não perdemos o contato com esta criança, não perderemos o contato com a vida. (...)

quinta-feira, 6 de março de 2008

"Crianças! Cuidado com os Baobás!"

"(...)"É uma questão de disciplina", me disse mais tarde o princepezinho. "Quando a gente acaba a toalete da manhã, começa a fazer com cuidado a toalete do planeta. É preciso que nos habituemos a arrancar regularmente os baobás logo que se diferenciem das roseiras, com as quais muito se parecem quando pequenos. É um trabalho sem graça, mas de fácil execução."
E um dia aconselhou-me fazer um belo desenho para que as crianças do meu planeta tomassem consciência desse perigo (...) "quando se trata de baobás, é sempre uma catástrofe. Conheci um planeta habitado por um preguiçoso. Ele havia deixado que ali crescessem três arbustos..."
E de acordo com as orientações do pequeno príncipe, desenhei tal planeta. Não gosto de assumir o tom de moralista, mas o perigo dos baobás é tão pouco conhecido, e tão grandes são os riscos para aquele que um dia se perdesse num asteróide, que, ao menos uma vez, abro exceção e digo: "Crianças! Cuidado com os baobás!" Foi para advertir meus amigos de um perigo que há tanto tempo os ameaçava, como a mim, e do qual nunca suspeitamos, que tanto caprichei naquele desenho. A mensagem que eu transmitia era de grande importância.(...)"